O tempo da Arte
domingo, junho 05, 2011Para que serve um sapato? Para calçar um pé descalço. Para que serve um casaco? Para aquecer o corpo nas noites frias de inverno. E obra de arte, para que finalidade se propõe? Talvez seja essa uma das indagações mais pontuais e latentes de todos os tempos – uma vez que a arte está ligada intrinsecamente à vida de todos os seres humanos, em todas as épocas, em todas as civilizações. As respostas divergem, se agridem. Podemos até traçar um paralelo entre arte e história. A arte pôde ser considerada um marcador histórico de maneira didática que representou o tempo, captou sua essência. As sociedades da Antiguidade oriental, por exemplo, foram marcadas por uma grande desigualdade social e política. Os assírios utilizavam as esculturas de baixo-relevo com os temas de guerra e caça para cultivar sua história, atividades essas consideradas de elite. Coube ao rei assírio Assurbanipal a construção da biblioteca de Nínive, datada do século XVII a.C. É de sua responsabilidade uma das bibliotecas mais antigas de que se tem notícia. Constitui-se de uma coleção de escritos cuneiformes, sobre vários acontecimentos e assuntos pertinentes a sua história. Essas representações podem ser vistas como artes documentais. Posteriormente, a arte ganha outra função: educar, instruir. Essa interpretação é imensamente difundida na Idade Média. Seu dever era sustentado na religiosidade e na famigerada transcendência. As expressões artísticas tinham a finalidade de elevar o espírito do artista e edificar sua alma. Um encontro com Deus, livre do fatídico momento da morte. Uma tentativa de tirar esse peso das costas das artes acontece no Renascimento italiano, onde a beleza torna-se um conceito artístico, não mais baseado em questões éticas e morais. O império contra-ataca, a Contra-Reforma católica argumenta que a arte e a beleza existem a fim de reafirmar uma “verdade” que independe da arte. Uma verdade que precede qualquer manifestação artística. A arte como utilitária, carregada de deveres. É só a partir da Modernidade que se discute a existência de uma arte que passa a existir por ela mesma. A arte pela arte. “Sua formulação foi sentida pelos artistas como uma verdadeira inovação, a libertação da arte de quaisquer compromissos com o não-artístico, a moral, a política, a exaltação patriótica, a tradição nacional, o Bem e a Verdade.” Esse trecho, retirado dos Anseios Cripticos, de Paulo Leminski ilustra bem o que acontece com a arte e sua função, após o fim da Idade Média. Perdem-se os mecenas, o artista fica a ermo. A arte Moderna - final do século XIX até 1970, segundo alguns historiadores - durante as primeiras décadas foi um fenômeno quase que exclusivamente europeu. As primeiras sementes de ideias modernas vieram dos artistas do estilo romântico como Charles Baudelaire, e dos realistas. O mesmo Baudelaire que afirmava a perda da aura da arte, como se arte tivesse se tornado apenas um produto venal, prosaico. O que futuramente Water Benjamin chamaria de reprodutibilidade técnica. A indústria cultural teria estendido seus tentáculos a todas as expressões artísticas que se possa imaginar. O grande Leviatã, chamado Capitalismo, teria engolido a alma da arte e cuspido essa mistura, pouco tragável, que se fantasia de arte para pular o carnaval. Proíbam os pássaros, arte circunda seus olhos. Todas as discussões foram razoáveis. Mas você conseguiu ler a dramaturgia artística em que se desenha a função da arte? A arte pode até ser puro hedonismo, manifesto, enfeite. A arte pode ser qualquer coisa. Porém, não cometa o erro fatal de dizer que qualquer coisa é arte. Ela é a expressão mais íntima do inconsciente humano. Evoca uma existência fora de si, que finge. Finge tão bem que, às vezes, finge nem ser arte. Se autorreferencia de uma forma mágica. E logicamente, toda essa existência, depende do outro. Assim como Lacan afirma que somos o desejo do Outro, também a arte encontra-se nesse Outro. Certa vez li uma reportagem sobre o roubo de alguns quadros de uma das famílias mais conhecidas do estado de São Paulo. A pomposa senhora, cheia de anéis, dizia que a quantia de US$ 106.023 milhões era irrisória. Ela queria ver novamente os quadros na parede. Semanas depois, os quadros foram encontrados em um cafofo, no Rio de Janeiro, onde até chuva entrava. Os valiosíssimos quadros estavam embrulhados num saco plástico, desses que se coloca lixo pesado. A função da arte é emocionar. É buscar dentro de si uma referência que justifique o ato de parar para olhar, de admirar. Talvez seja aí o ponto das divergências sobre a arte. A arte não toca todos de forma igual, sua natureza irregular não pode ser medida de forma cartesiana. Eduardo Galeano consegue, em dois de seus mais lindos textos, atingir de forma bem simples a função da arte – em suas mais diversas formas: a literatura, as artes plásticas, as manifestações teatrais, enfim. O primeiro traz consigo o título que iniciou esse ensaio: A função da Arte. Nele, Galeano conta a experiência de pai e filho, no que seria o primeiro encontro que o infante teve com o mar. O segundo, um clássico, é um soneto que jamais teria coragem de negá-lo a ninguém, por mais odioso que esse ninguém fosse: "Nos tempos da ditadura militar, os presos políticos uruguaios não podiam falar sem licença, assoviar, sorrir, cantar, caminhar rápido nem cumprimentar outro preso. Tampouco podiam desenhar nem receber desenhos de mulheres grávidas, casais, borboletas, estrelas ou pássaros. Didaskó Pérez, professor, torturado e preso por ter idéias ideológicas, recebe num domingo a visita de sua filha Milay, de cinco anos. A filha traz para ele um desenho de pássaros. Os censores o rasgam na entrada da cadeia. No domingo seguinte, Milay traz para o pai um desenho de árvores. As árvores não estão proibidas e o desenho passa. Didaskó elogia a obra e pergunta à filha o que são os pequenos círculos coloridos que aparecem nas copas das árvores, muitos pequenos círculos entre a ramagem: - São laranjas? Que frutas são? A menina o faz calar: -Shhhh. E em tom de segredo explica: - Bobo. Não está vendo que são olhos? Os olhos dos pássaros que eu trouxe escondidos para você". Um sapato, calça. Um casaco, cobre. Mas só obra de arte, como essa, é capaz de libertar os pássaros escondidos em suas tênues e emotivas linhas.
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