Ao amigo Daniel Zanella
quinta-feira, novembro 17, 2011 A casa vai ficando vazia, enquanto espero a hora mais íntima da noite para que o silêncio liberte minha alma num papel branco. Guardei esse momento e alma – num tom meio melancólico - para escrever estas palavras. Solícitos aos meus pedidos de ajuda cantam os Paralamas seus sucessos: “quartos de hotel são iguais/ dias são iguais, os aviões são iguais/ meninas iguais/ não há muito que falar sobre o dia/ não há do que reclamar/ tudo caminha/ e as horas passam devagar/ num ônibus de linha/ passos no corredor”. Procuro, subestimando essa estranha inaptidão em escrever aos nossos caros, as palavras ao companheiro de rimas e músicas.
Pois então, bom amigo. Neste universo particular de palavras trocadas também posso agradecer o bom Deus, que sabido que só ele, não quis levar-me antes que cumprisse meu papel nessa terra tupiniquim e me dedicasse a escrever-te. E agradeço e escrevo porque pude lhe conhecer. Despojar desses valores mundanos, criticando copiosamente nossos desafetos, reduzindo-os a murmúrios, nada mais ou nada menos que eles não mereçam. A eles nossos adjetivos mais odiosos, nessa envenenada liturgia pecaminosa em que fomos bem catequizados. Nossa culpa é irremissível, por ora, não nos preocupa em nada já que nem pedimos o perdão.
A vida vai caminhando e esse é um ano muito importante para todos nós. E como bem lembra Rubem Braga, em uma crônica imortal, está chegando o solstício de 21 de dezembro – o último, segundo os maias - que torna este o dia mais longo do ano. Graças a Deus. Os dias são adoráveis. As noites são sofríveis, mas os dias... São memoráveis. Esse verão terá uma nova matriz de cores a enxergar, a vida ganhou uma nova perspectiva. Tenho as palavras do amigo que nos libera da fatigante rotina de nossos dias torpes. E como escreve bem esse meu amigo. E como lida bem com as palavras. Uns dizem que é porque tem tempo para escrever. Mentira deles, invejosos. O tempo é uma engrenagem, às vezes emperra. Há o momento que paramos para olhar, inspecionar nossas vidas. Trocar o óleo. Ficamos a maquinar os passos que cometemos. As palavras que lemos e escrevemos, são parafusos auxiliares, que nos ajudam a compreender um pouco disso tudo. Não é que não tenham tempo para escrever, é que não sabem a engenharia desse sistema temporal. Para escrever é preciso ficar em silêncio e não há nada mais sombrio que nossos próprios silêncios.
Desejo que no futuro, bem lá na frente, quando tempo teimar emperrar, que fique eu olhar para trás. Essa vida encardida, as noites que bebemos e éramos jovens e bonitos e insaciáveis. E quando a Camila do futuro se deparar com um livro, irmão deste que ela te deu no passado, que se lembre também de como o escolheu. Como comprovou sua eficácia de colega, sem lirismo comedido, sem lirismo comportado, sua ajuda ao combater os dissabores dessa cova rasa, chamada vida. Que ele nos lembre de nossas mulheres. De nossos desejos, de nossos amores bentos em lágrimas, do verão memorável, o último verão em que compartilhamos os corredores daquela Universidade. É tempo de comemorar, amigo. É quase verão e é noite de lua cheia, tão cheia quanto nossos corações de sonhos de noites de verão.
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