Representação do gostar

terça-feira, novembro 01, 2011

"Seus olhos negros brilhavam e como eu não sabia, à época, nem aprendi depois, reduzir a seus elementos objetivos uma expressão forte, como não tivesse, feito se diz, suficiente "espírito de observação" para poder isolar a noção da sua cor, durante muito tempo, a cada vez que nela pensava, a lembrança do brilho de seus olhos se apresentava logo a mim como o de um azul vivo, visto que ela era loura: de forma que, se ela não tivesse olhos assim tão negros - o que muito espantava, da primeira vez que a vi - eu não teria ficado, como fiquei, mais especialmente apaixonado, nela, de seus olhos azuis."

Trecho de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust.

Ontem durante aula falávamos sobre a representação, tão comum aos humanos. Representamos tudo. Não é preciso que nos digam os donos dos olhos negros. Já sabemos, por pressuposto. Os olhos negros que nos apetecem, os que me apetecem, estão tão cheios de vida na foto que não canso de olhar, que quase desisto do trabalho - que se acumula na mesa. Estar apaixonado é viver a livre associação, é ver nos olhos dos outros os olhos que desejamos ver. A moça de Proust era para mim como alguém que não respeita gênero, nem nacionalidade. Porque pouco me importa a moça, o que importa é o moço de olhos furtivos, sentado sobre a luz fotográfica.

Sua habilidade com as mãos. A disposição dos dias em que nossos olhos podem novamente se fitar. O silêncio entre as falas. Porque, afinal, somos o silêncio. Dizemos coisas muito mais significativas nos intervalos de nossas conversas, entregamos nossos segredos mais inconfessáveis. E é no silêncio que se encontra a saudade. Porque entre as falas já se pode sentir saudade do que foi dito. E saudade, diria um amigo distante, "é a ressaca da presença".

Sou dos que escrevem, deixo dito em papel a saudade nos intervalos entre palavras. Porque os dias foram memoráveis. Porque é preciso dizer. Sou dos que escrevem, daqueles se escrevem porque algo está incomodando. Porque gostar incomoda. Porque a quietude dos que amam não interessa aos que escrevem. Porque olhos negros, quase azuis incomodam e muito. São estes olhos uma prova cabal e cabalística de que não somos mais os mesmos que éramos antes dos olhos em questão. E saímos por aí, ressiginificando o mundo.

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