Os astros à distância
quarta-feira, maio 09, 2012
Não posso reclamar, sou filha derradeira de minha família. Nasci irmã de dez primos quase da mesma idade, em sua maioria garotos. Éramos uma gangue, uma quadrilha. Eu era única menina convida a dança, Maria Bonita entre os cangaceiros da terra vermelha. Sou menina da capital, que visita a família no interior. Nasci de revés, sou sem jeito e gosto mesmo é de coisa de menino. Sem métrica ou verso decassílabo. Trabalhei o suficiente para ser uma vergonha ao Capital, sempre gostei do ócio criativo. Da tarde na varanda, do café sem compromisso, de conversa fiada no bar. Deus fez-me um homem num corpo de mulher, um homem diferente desses que se define por gênero. Gosto de ser assim, não posso reclamar.
Brincávamos, nesse passeio incomum que fiz, brincávamos como há muito não fazíamos. Depois de horas na terra, voltamos com fome, como se fora aquela a última refeição, antes do juízo final. Como fazíamos aos 11 anos, estávamos cansados, com a soma de quase duas décadas e meia nas costas. Almoçamos no quintal, ou como chamam por aqui, no terreiro. Os muros são tão baixos que víamos crianças brincado de bolinha de gude, na rua da antiga casa onde meus avós viviam. Há sempre uma menina. Uma menina que gosta de mandar e sempre chora porque não consegue. Apanhei e bati, feito menino, ela também. Ríamos, enquanto comparávamos-nos a eles.
À noite, descansamos com o compromisso de mirar a lua. A promessa de um fenômeno lunar nos animou a colocar colchões para o lado de fora, pegamos cobertores. Dica da vó, que se preocupava com o frio levíssimo que fazia. Podíamos quase tocar a lua, enquanto eu recitava Pablo Neruda:
“A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância
Gira o vento da noite pelo céu e canta
Posso escrever os versos mais tristes esta noite...”
“Coisa de gay”, diziam. Enquanto o silêncio me despedia desses encontros de verão fora de época.
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