Parou na contramão como um pacote flácido.

quinta-feira, janeiro 30, 2014


             Uma mulher atravessa a rua. Todos temem pelo pior. A mulher em questão é uma velha. Pilares e civilizações ergueram-se no vazio da humanidade. A velha continua, irremissível. O último homem morreu. O sol escaldante, a fome do meio-dia. A moça do lado perdeu o encontro com o grande amor, no momento em que iria amar pela primeira vez. O moço adiposo, quase esqueceu que dia era. Uma moto buzina, um moço desliza em seus patins. O sinal está verde, ninguém prossegue, todos buzinam como uma orquestra. Pisca-alerta. Motor chamando. Alguém encosta-se à guia, entra pela calçada. A velha continua, irremissível. Alguém xinga, alguém revida. A velha continua, irremissível. Estamos escorregando, esvaindo por causa da velha.
            Essa velha vai acabar com a Copa. A velha mexeu no nosso queijo. A velha é culpada pelo fracasso dos meios de comunicação. A velha desceu da favela e veio se misturar com gente de bem. A velha é imoral. A velha planeja um golpe comunista. A velha nem sabe quem é o Batman, por isso ele não a representa. A velha não conhece a norma culta. A velha é velha porque não acredita em Deus. A velha não é como a gente. A velha deve ser pobre.
            Dois passos antes do meio-fio, a velha é apenas uma mulher. Uma mulher cansada. Pequena tatuagem no braço. Cabelos e a agressão do tempo. A velha sucumbe, atravessa à calçada. Todos os carros seguem. Cantam pneus. Pequenas ilhas condicionadas. Esperando na próxima esquina uma velha, um menino de rua ou um cão. Alguém para expurgar nossos pecados. 

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