Tempo, tempo. Mano véio
quinta-feira, novembro 12, 2009Hoje eu acordei odiando o tempo. Não falo aqui das variações climáticas tão peculiares de nossa pequena capital, mas sim daquele tempo que o homem decidiu contabilizar. Até então o tempo era nuvem, era catavento girando o mundo tão intensamente e colorido que viver era, simplesmente, viver. Mas nós, como seres civilizados, criamos uma forma de aprisionar o tempo nos dois imparciais ponteiros do relógio.
O tempo se entristeceu vendo que para nós ele é meramente comercial. “As sete eu acordo, a meia noite eu me deito e meu dia morreu, o tempo escorreu entre as mãos ocupadíssimas do meu cotidiano”. Então, depois dessa traiçoeira forma de controlá-lo, ele resolveu passar apertado diante dos nossos olhos, nos arrastando feito o cavaleiro errante de passo torto, que carrega desmazelado seu escudo, mesmo sabendo que de nada lhe adianta fazê-lo – as batalhas não existem, se existissem estariam todas perdidas. Daí por diante nós, na ingênua pretensão, tentamos eternizar o tempo. Criamos a mais genial forma de capturá-lo. Quem disse que não inventamos uma máquina do tempo? Ela enquadra o tempo nas quatro paredes sólidas do quadro fotográfico, ela rouba do tempo luz e a imagem, aquele tempo foi e sempre será assim, intacto e imutável. Mas é inegável, fez parte do tempo que foi registrado. E foi justamente ela a causa da minha consequência, a fotografia de um tempo que não volta mais que me fez odiar o tempo.
Fiquei bitolada seguindo palavras e buscando passos frenéticos. Agora, o que me resta é culpar o tempo. Quanto tempo gasto pensando no tempo? Qual o tempo de um beijo interminável? Se eu pudesse voltar no tempo, voltaria e cometeria os mesmos erros, para lembrar e dizer novamente: “Ah! Se eu pudesse voltar no tempo”. Antigamente eu não era assim, não contava estrelas, era do tipo que amava pela metade. Hoje não, eu amo com pernas, braços, sorriso e boca. Sou alvo fácil. Passei a ser exagerada, como quem não sabe querer devagarzinho, como quem não sabe esperar. O tempo me levou tanta gente que eu até perdi a conta. Olhei na foto o tempo em que maçã era fruta e não um convite ao pecado. Olhei no meu olho, orgulhoso quando olhava para a lente. Bem no fim, nenhuma constatação poderia ser mais egoísta quanto esta: eu odeio o tempo por não poder controlá-lo. Eu errei como qualquer outro ser civilizado, aprisionei e capturei o tempo, mas não pude manipulá-lo. Conclusão? O tempo não é meu, mas quer saber, nada é mesmo. O que me resta é dizer a ele ”Tempo amigo seja legal/ Conto contigo pela madrugada/ Só me derrube no final”.
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