Carência de carência.

segunda-feira, outubro 26, 2009

É incrível a capacidade que temos de nos apegar as coisas que amamos. Certa vez, conheci um homem que colecionava coisas pequenas, miniaturas de coisas grandes, como pequenas chaves de fenda. Cada pecinha era tão perfeita em seus detalhes, que pareciam fazer parte de um mundinho todo especial. Esse homem cuidava com tanto zelo e destreza de suas coleções que acabava se esquecendo de viver no seu mundo de grandes prédios e pessoas, ele devotava tanto amor e carinho a esse trabalho que realizava, que era perdoável todo tempo gasto nesse peculiar divertimento. Quando ele perdia ou esquecia onde punha uma miniatura, se desesperava, como se por aquela, sua cabeça fosse à forca. Procurava, revirava cada canto de sua casa até achá-la, caso tivesse perdido, logo começava a chorar e repetir a si mesmo que aquela era única e mais valiosa de todas. E sem dúvida era, pois cada trabalho empenhado na peça era um pouquinho de amor depositado, eram como filhos seus.
Ninguém jamais entendeu o porquê dessa obsessão. Ninguém dizia, mas pensavam o que raios um empresário, pai de família fazia trancafiado em manhãs de sábado no seu quarto (que pela mania de cuidado com as pecinhas já não o dividia com sua mulher), organizando, pintando ou apenas olhando aquelas coisinhas. Mas ele nem ligava, ele amava cada peça, elas o faziam tão feliz. Nunca o condenei, achava até admirável um homem com uma vida tão corrida parar para cuidar meticulosamente daqueles trabalhosos e mínimos objetos. Achava bonito, gostava de observá-lo.
Foi daí que me veio essa ideia: apegamos-nos às coisas que nos fazem felizes. É como se fosse um vício inadiável. Cheguei a invejá-lo, queria ter algo para cuidar e zelar. É difícil perceber que as pessoas não fazem aquilo que querem por puro medo de não saber o que vão fazer com a felicidade que podem alcançar. Têm medo de “perder tempo”; que eu particularmente não chamo de tempo perdido, mas sim de tempo vivido, porque a cada segundo estamos vivendo, sorrindo, chorando, pensando. Mas sabe, passei a pensar mais no que nós chamamos de felicidade, o que entendemos por amar e ser amado. O que é viver? A resposta está nas flores amarelas e roxas da primavera. Está também no “estar pronto para o café forte” depois daquele fora memorável, mas também, para um sorriso.
Certo dia nessas idas e vindas, alguém me chamou de carente, então lhe respondi prontamente: não sou carente, não me falta nada. Ele sem pestanejar replicou: você é carente de carência. Por um minuto a cena foi divertida e irônica, "a quem tudo tem, lhe falta o nada". Então resolvi que preciso de carência, e vou encontrá-la certamente convivendo com as pessoas. Mas não falo dessa carência peigas de amor não correspondido e meloso, falo da carência de carecer de algo, de precisar. Me apeguei a minha carência de carência. Assim como aquele homem que cuidava das pecinhas, me dediquei a algo além das minhas pretensões do mundo real. Vou amá-la e quando você encontrar alguém precisando de tudo, amor, flores amarelas, vida e viver, pode saber que essa pessoa sou eu.

You Might Also Like

2 comentários