O problema é que tem muita estrela e pouca constelação
quarta-feira, julho 14, 2010Raulzito reclamava por pouco. Mal podia ele, o mago, prever que em mais ou menos 20 anos a história do roque brasileiro mudaria de tal forma que a velha e infalível combinação do jeans surrado e camisa branca seriam um artigo de luxo em meio a tanta fluorescência nas roupas. Qual é o problema do visual monocolor? Sinceramente, o que mais me assusta não é a variedade de cores das calças desses meninos, mas as letras das suas canções. Não gosto muito daquele papo intelectualóide e chatíssimo de que “no meu tempo, isso”, “sou do tempo em que”. Nós participamos sim, direta e indiretamente, de todo tempo e espaço em que vivemos, mas tenho que concordar que há um tempo as músicas falavam de coisas inerentes aos problemas da sociedade que estávamos enfrentando, da política – pela sátira da situação patética de democracia, tão cega quanto a justiça, em que vivíamos. Falar de amor e relacionamentos que chegam ao fim é fácil. Afinal, o amor e a decepção amorosa são tão comuns quanto os banheiros públicos, você pode até evitar, mas um belo dia vai ter que passar por um deles. Difícil é falar de amor de forma inteligente, de um amor sublime sobre tudo e qualquer coisa, assim como a Legião Urbana fazia. Assim como qualquer banda um dia já fez e, se não fez, vai fazer. O amor é universal. Mas isso não justifica tanta babaquice “e todo mundo posando de artista”, me desculpem o desabafo, caros amigos.
Não sei se é a pouca idade, uma vez que os rostinhos são cada vez mais jovens. Mas a desculpa de que já não existe mundo a se mudar é uma mentira descarada. É só abrir o jornal, ou como preferirem, geração Y, as páginas da internet. O mundo está bem ali, cheio de acontecimentos que rendem belas canções. Quando o Barão Vermelho começou fazer sucesso, os integrantes eram relativamente jovens – a relatividade à qual me refiro está relacionada à pouca idade dos novos artistas. E mesmo suas músicas, inclusive as românticas, falavam sobre coisas que ainda fazem todo sentido duas décadas depois. Porque boas músicas não são perecíveis. E apesar dos CDs dessas bandinhas conterem um selo de qualidade, muito questionável, no sentido literal da palavra qualidade, elas já vêm com uma data de validade marcada: durável até o público alcançar 20 anos.
Tudo bem, a conexão com a moda até desce, o que eu não aceito é a história de: “Ah, não importa o que eles dizem, tia, eles super tem a pegada da moda, puta falta de sacanagem tua exigência”. Sendo assim, até prefiro colocarem manequins de plástico no palco vestidos com roupas lindas da última tendência, pelo menos o silêncio inanimado do boneco é mais agradável aos meus ouvidos.
Para quem ouve rádio, todo o dia é complicadíssimo. Não vou ser hipócrita dizendo que ouço só e exclusivamente as rádios all news, como são chamadas aquelas que veiculam notícias 24h em sua programação, eu gosto de ouvir o que acontece no mundo da música. Hoje, passando o dial por infinitas estações, não consegui ouvir uma música recente que prestasse. Existem aquelas rádios FMs que reproduzem música de qualidade, mas geralmente o grupo não é nacional ou pode ser até nacional, mas não são bandas novas, são artistas conhecidos, lançando novos álbuns. Pode até ser pessimismo, mas estou começando a ficar desacreditada do mundo da música. Francamente, me obrigo a cada dia imaginar que em algum beco escuro e sem cor, existem bandas boas, com refrões inteligentes só esperando uma oportunidade para salvar os rumos do rock nacional.
Pensando bem, que tudo isso seja pura efemeridade. Bom vai ser o tempo que, quando você ouvir uma menina de quinze anos dizer que vai pegar um “Cine”, ela só estará querendo dizer, inocentemente, que vai ao cinema. Ou quando aquele menino que mora em seu prédio insistir que o “Restart” não presta mais, você vai ficar tranqüilo sabendo que se trata do botão do vídeo game dele, que não funciona. E até lá, espero que não esteja escrevendo um artigo sobre eu ser de um tempo que a música era super colorida.
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