Uma crônica, crônica
sexta-feira, outubro 01, 2010Bom dia. O gosto salgado e amargo do choro invade a boca, o diazepam não faz efeito quando estamos no limiar: loucura e lucidez. É daquelas loucuras de pior espécie, cínica e obsessiva no açoite das verdades rudes. Depois do café quente, que desce rasgando a garganta, sinto a ferrugem que me invade e consome no prazer individual de dedilhar o violão. O que me assombra não é o fantasma dos amores que nunca deram certo, o medo alucinante que me tomba o corpo gelado é a lembrança da menina que vive de rua em rua, a pedir moedas. É quinta-feira, o relógio, que em cada badalada acompanha o tilintar das moedinhas que caem nas mãos da criança suja, marca cinco horas na capital silenciosa. Ela tem algo de unha nos dedinhos machucados e imundos. Está doente. Ela me estende as mãos, não no ato de quem oferece, mas pede que eu lhe entregue alguma coisa. Penso que existem dois monstros que corroem corpos e almas. Ao primeiro chamamos de fome; ao segundo, indiferença. Particularmente, não sou do tipo que dá esmola.
Do outro lado da rua está mãe da criança, eu deduzo pela voz da intuição – os olhos oblíquos são os mesmos. A lógica do tempo perde o compasso, o pensamento é caos. Ela é esguia e lépida, mas não me vê, estou entre as árvores. Seu braço magro quase se entende e funde ao cigarro tingido pelo batom vermelho, ela tem uma beleza decadente, deprimida. Ela mexe e as mãos e os lábios para que a fala seja inaudível. Com vontade, ela diz. Entendo o fotografo, em seu congelar do retrato. Eu congelei, como num retrato, o movimento daquela mulher. Ela pede à filha que peça com mais vontade. Eu peço a morte e acordo do coma. Jogo as moedas, como o apostador azarado. Corro, covardemente, com medo de olhar para trás.
Não é a dor que me entristece, ela é alimento para a solidão. É noite mais uma vez, o manto negro pode consolar um espírito demente. O terreno do sonho é inóspito e conhecido, o pavor dos sonhos que se repetem no mágico assombro inconsciente. Me lembro a primeira vez que visitei o lugar. Eu era criança e rezava, tinha tanto medo que às vezes dormia agarrada no terço, como um cobertor espiritual. Que doce engano, todos os sonhos eram pesadelos. Naquela época eu rezava pela minha família e por todos os conhecidos, me chamavam de altruísta. Com o tempo a reza era para mim e minhas questões particulares, hoje me chamam de outros “ístas” que não convém a minha imagem pronunciar. É um terreno arenoso e o céu é um espelho da imensidão estrelada dos pequenos grãos de areia. A criança me chama, ela está doente. Dessa vez, pego-a no colo e quando olho em seus olhos me enxergo. Eu sou a criança. Novamente corro e chego a uma porta gigantesca. Quem me espera para o julgamento é Janus, o deus romano de duas faces, que vislumbra o futuro e sabe de todo passado. A indecisão de em que lado ficar se assemelha a minha vida consciente. Ele segura as portas e conduz ao julgamento divino. É o terror noturno, que o louco chama de velocidade terrível da queda. Os deuses me arremessam ao abismo vertiginoso, a queda é eminente, o grito inevitável, meu corpo resvala nas lembranças. Agora sem coração, Janus grita do alto.
O apocalipse luminoso me desperta, é madrugada, o sol está querendo rasgar o céu. Ele está vermelho. Eu desperto num soluço calado pelo barulho da rua. Ponho-me a janela, corpos dançam, gargalhando, bebem, são solúveis em álcool. Seus corpos são engolidos com voracidade pela violência. Eu os invejo. Posso imaginar a mulher dançando magra, cigarro na ponta dos dedos, a fumaça enchendo seus pulmões, as cinzas caem no mesmo chão onde a criança se debruça para pegar as moedas caídas.
De súbito, coloco as mãos no peito. As mãos tremem, elas procuram desesperadamente sentir o coração batendo, indício de que o sonho foi só um sonho mesmo. Enfim consigo sentir os batimentos cardíacos. Lembro das palavras de uma das faces de Janus:
- O dia é sua condenação. É a dádiva e a perdição em manter-se lúcido e desperto.
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