Sobre chibatas, Décadence Avec Élégance e outros assuntos nojinho.
quarta-feira, outubro 06, 2010Discriminação é uma palavra que, além de feia, coloca gente de ego estratosférico atrás das grades. A regra é: nunca pronuncie a palavra pobre e você será bem-vinda. Coloque sua melhor roupinha. Enquanto a vizinha de mesa ri, aberta como um belo porta-jóias, perguntando para suas coleguinhas se é isso tudo que você pode fazer para ser aceita no high society. Então permaneça de boca calada, falar de partidos de esquerda é uma blasfêmia. Garota ingrata deveria agradecer por fazer parte de um mundo tão bonito quanto esse, diz a menina outdoor – super-heroína da classe média. Como é defender o mundinho ‘cult’ do lado de lá? Isso já não sei dizer. Porque aqui, no lado dos garotos da rua de baixo, o simulacro infantilóide da menina que força a voz para infantilizá-la nunca colou.
Aqui o mundo real é feito de gente que sabe e sentiu na pele o lado da moeda que só beneficia a coroa. Todo mundo defende um lado, quando eu ouço alguém dizendo que os milhões de bolsas-não-sei-o-que só fazem o povo não querer trabalhar, é como se fosse uma noite no tronco.
A primeira chibatada é em relação ao povo. Eu realmente queria saber o que é esse povo que tanto se menciona. Eu tenho nojo do povo, lavo as mãos depois de tocá-lo, diz o moço de terno e gravata. O pior é quando esse tal povo resolve se juntar, daí o negócio vira um samba do crioulo doido. Ele não é mais povo, é povão – exatamente, dando ênfase naquele “ão” tão depreciativo quando o “inho” do povinho.
O resto do açoite fica por conta do “eu conheço muita gente que vive numa boa graças a essas bolsas”. Eu não conheço nenhum colega, amigo, inimigo, que seja capaz de viver “numa boa” com 200 reais por mês. Pisando delicadamente, como um equilibrista, na linha da pobreza. No limite da dignidade e ainda tolhido de seu direito mais inegável e constitucionalmente garantido: o voto em qualquer pessoa que lhe apeteça. É como dizem, só estou defendendo meus interesses e meu interesse é que os ricos desse país se lasquem. Que gente inculta, eles não querem mais passar fome, diz dondoca nos salões da capital. Mas espere aí, o que estou fazendo? Não, isso não pode. Tenho que aceitar humildemente as ofensas, afinal, o sonho de todo pobre é pertencer à classe média.
Mas isso não basta, o negócio é ofender profundamente. Chamam de aleijado, analfabeto, bêbado, comunista – mesmo não sabendo lhufas sobre o significado e origem da palavra. Mas calma, não é discriminação, é opinião. Então está tudo bem. Eu uso o subterfúgio, a couraça de caráter, ela me envolve e mantém quentinha.
Pois bem caros amigos, se discurso polido valesse de algo, com toda certeza Fernando Collor de Melo, aquele mesmo que disse ter “aquilo roxo”, depois de uma série de palavras bonitas para entrar no governo, teria sido o melhor presidente da América Latina. Falar bonito é aprazível, dá aquele ar de sábio, aquele que entende do que fala.
O problema é que eu cansei. Cansei de forjar a concordância, cansei de balançar a cabeça, mecanicamente. Cansei de dar a outra face, de olhar na cara do coleguinha e ouvir: “tadinha, é pobre mais trabalhadeira”. Eu defendo a esquerda porque sou pobre, sou pobre, mas conheço a minha história e a construção desse país, que foi sempre à custa de uma minoria que se calava e aceitava religiosamente as mazelas sociais. Enquanto você e seu dinheiro viajavam para a Disney, eu me debruçava nos livros de história e compreendia que os partidos políticos do século passado que oprimiram o trabalhador só mudaram de nome e sede. É a revolta da chibata. Eu quero viver em um país justo, já que isso não é uma coisa fácil de alcançar, que pelo menos meu direito democrático seja respeitado.
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