A direita é burra.

quinta-feira, abril 14, 2011

Dizia a mãe, da mão quebrada. Justificava tal ofensa na maneira como a direita enchia de críticas à esquerda. Ela mal entrara no reinado sinistro, a direita reclamava o poder. Eram tantos anos ali, nos mandes e desmandes, que ela achava divino o poder de colocar o dedo em riste. Tudo era errado, tudo era atravessado. A direita, engessada, usava uma maneira oblíqua de se safar das respostas, imaginava eu até um discurso. Era um tal de “se eu tivesse aí”, “na minha época”, que a mão esquerda se questionava atônita: “Quando pode, por que não fez?”.

Dona Elô dizia que não sentia falta da direita, em nada mesmo. A única coisa ruim em quebrar a mão direita é que, depois de tantos anos governando o corpo, ela não deixava a esquerda aprender, nem que fosse com os próprios erros. Toda vez que esquerda exercia o mandato, a direita logo lhe impunha uma série de objeções, obstáculos e insubordinações. A mão direita era insuportável. Retrucava a senhorinha.

A coisa é bem pior. Quando se trata das direitas, até Deus é colocado no meio. “À direita de Deus Pai, nosso senhor” ficam os que são bons e a esquerda... A mãe discordava eminentemente. A habilidade que a mão direita tem de convencer de tudo sempre está direito, nada tem a ver com a aptidão de governar - o corpo, que fique claro.

Sempre tive muito apreço pela esquerda. A conspiração que se fazia, nos tempos de escola, contra a esquerda resultou na baixa aceitação dos canhotos. A predileção da direita era tanta que, para escrever com a esquerda, era preciso treinar em casa, escondido. Lembro o primeiro dia em que coloquei a mão no lápis para escrever. A esquerda tomara a iniciativa, a professora pediu que mudasse de mão. “Ora bolas, como assim vai começar pelo errado?”. Durante anos tive que engolir a direita. Agora, depois de muito tempo, coloquei a esquerda para trabalhar. Às vezes me decepciona nos garranchos. Mas ainda sim, me dá muito orgulho. Sinto que a direita, monogâmica, sente ameaçada sua dominação destra. Paciência.

Mas nada nesse mundo me irrita tanto quanto os ambidestros, tanto os das mãos quanto os ambidestros na política.

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