Prostituídos pela ciência.

quinta-feira, abril 14, 2011

Acordo com a seguinte máxima: “O Brasil está servindo para exportar cérebros”. Bem pudera, com os humildes investimentos, os estudantes dessa terra semi-verde – que pelo visto vai terminar em barranco, para a felicidade dos preguiçosos – ficam aquém dos 1,09% do PIB. Uma miséria, a rapa da panela queimada.
E continuava o interlocutor, se afogando em testosterona e saliva, “quanto mais estudo, mas se distanciam da terra amada, vendem seu conhecimento a outras patentes”. Meus colegas mercenários, nós nunca negamos conhecimento a ninguém.
O fato é que cansamos dos ônibus lotados e dos salgadinhos duvidosos das cantinas. Fadigamo-nos de pernoitar frente a frente à máquina, espremendo nossos conhecimentos, por mais parcos que eles fossem, a fim de sermos aqueles cidadãos de bem, com os quais gozavam nossos pais ao sonharem. Comemos a rapa até que um dia nos ofereceram o crème brûlée da sabedoria.
Oferecem-nos seus laboratórios limpinhos e cheios de reagentes; bibliotecas recheadas de conhecimento e dinheiro para financiar nossas experiências intelectuais mais libidinosas. Trataram-nos com carinho e afeto, nós não precisaríamos pagar passagem nos transportes públicos. Cometemos nossas próclises, mesóclises e ênclises para agradar nossos fiéis mecenas. Como somos depravados...
Incumbidos à dramaturgia do intelecto ficamos, assim, dissimulados. Pegamos nossas trouxinhas e sumimos. Enquanto isso, nosso país aperta o cinto da Pesquisa e do Desenvolvimento para segurar as calças da inflação – cada dia mais curta. Enquanto os palestrantes falam sobre suce$$o, com cifrões mesmo, ecoando baboseiras pelos teatros universitários, a boa e velha balela neoliberal, ficamos esperando, como trouxas, os investimentos necessários para nossa dignidade estudantil, há muito tempo perdida.
Pois bem, estou prestes a me formar e peço desesperadamente que me comprem. Super atendam as minhas hipérboles. Não me deixem sentada nessa patente.
Dizem por aí que profissões nasceram do mesmo berço. Acredito que três, especificamente, nasceram e criaram-se no mesmo leito: a primeira da trindade, nada santa, é a mais antiga de todas; a segunda enche as salas de Brasília e terceira é nossa. Todas elas muito semelhantes, afinal, já dizia minha amiga Cintia,“se até trabalhar eu trabalho por dinheiro, que mal pode fazer?”. Já diziam os porcalhões, briguentos, adoradores de satanás: Come, come on, listen to the moneytalk.

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