De matéria e onde o mar acaba.

domingo, abril 10, 2011


Foi por ver a menina andando, que cruzava a rua em linha reta, ora no impulso adolescente, ora no medo paralisante, que eu desci parar. Sentei entre o meio-fio e a rua. Entre ficar e ver o tempo, entre partir e perdê-lo. A menina voltou, esperava o sinal abrir. Não que a notícia viesse me encontrar em uma situação pior, nem que acreditasse que tudo acontece comigo. Não que eu pensasse ser a pessoa mais infortunada do mundo. Pelo contrário, sentia uma estranheza, um conforto maternal. Uma vontade de fazer nada. Há poucos minutos havia sido despedida, a mãe em casa com o braço quebrado, a vida que vai cambaleando feio equilibrista - que sonha em voar, mas teme a queda - o chuvisco, o sol, a vida. A vida seguia assim, como quem entra em outra existência, superior e independente da gente. Reduzia a mágica das coisas às respostas pueris. A vida teima em querer, sem aviso prévio. Não sentia mágoa ou pesar. Sentia nada.

E não queria conversa, a pia que pingue; a dor que doa; a vilã que vingue; a lenha que arda. De repente, aquele meio-fio, eu e meus pensamentos concordamos com o momento de diálogo entre mim, eles e minha alma. O solilóquio entre razão e consciência. Como era mesmo que nos enxergávamos? Éramos febris. Éramos o resultado de uma ressaca marítima, um barco alquebrado. Ancorado nas ruínas que ruíam, som e fúria. As folhas caíam pela calçada, o vento tamborilante avisava a chegada de uma tempestade. O ritmo do vento e do pensamento me carregava. O vento, Tambor de Mina, o transe, a dança das folhas. As pequenas folhas eram como Derviches e sua dança cósmica, acomodando sua silhueta vertiginosa a calçada, rasteira como as incertezas. Deus sabe que conversa foi aquela.

A menina foi ter comigo, perguntava se tal ônibus já havia passado e outra fala, que mais parecia grego. Não respondi com palavras, apenas acenei com a cabeça negativamente. Vi a moça partir. Permaneci ali por algumas horas. A moça, que tentava cruzar a rua outrora, agora toma um ônibus qualquer.

Como toda boa filha de Insã, emprestei a voz da tempestade, tomei alguns pingos de chuva e levantei. Aquele corisco azulado, que cortava o céu, clareava o começo da noite, como se a noite quisesse ser dia novamente. Como se o céu quisesse fazer como em Estocolmo e o raio almejasse ter a grandeza de um segundo sol, que nasce já revolto, guardando em si todas as dores das meninas de casaco vermelho que caminham sob sua visão resplandecente.

Enquanto descia as ruas amareladas da capital, encontro uma moça de beleza inesquecível. Ela me sorri com cumplicidade, era uma amiga de muito tempo e apreço. Ela segurava uma criança de beleza comparável a materna. Perguntou-me se queria segurá-la. Afirmei. Conversamos sobre a vida, ela me segredou suas angústias. Disse algo sobre minha sorte. Disse-lhe que a ninguém cobiçava, mas a vida poderia ter sido mais doce. Contei sobre minha melhor amiga e sua gestação e como eu amava aquela criança, antes mesmo dela nascer. Falamos sobre a terra ter saído do seu eixo. Falamos sobre o mar e sobre o vento.

O meu mundo tornou-se ínfimo. O mar coube em mim. O transtorno onde há grandes vagas se tornava uma calmaria romântica e salgada. A espuma do mar – resultado do choque das ondas – como uma cólera contida chegava aos meus pés como uma sutil marola. Já não chovia e a brisa noturna bagunçava meus cabelos. Lembrei de Daniel, que queria ser vento bravo. Em nossos diálogos, eu queria ser mar. “E seremos, meu caro. Quando findar nosso tempo, nossa matéria, que se transforma, há de repousar entre vento bravo e mar revolto, vamos permanecer em nós, descansar” dizia eu.

Mal piso em terreno neutro e me ligam, é um convite para trabalhar noutro lugar. “A matéria não morre simplesmente, apenas se modifica”, replicava ele. Aceitei, eu ainda estava em transe.

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