Partir andar.

quinta-feira, março 31, 2011


Eu não quis te fazer infeliz, não quis. Por tanto não querer, talvez fiz.

Quando a gente ouvia a música, era como se anunciássemos para nós mesmo o fim iminente. Mas nada fazíamos. Dizíamos sempre, quando a hora da alvorada chegasse, íamos nos dar de ombros, para que a decisão de um não magoasse o outro.

A madrugada clareava o dia, mas não dizíamos o que, dentro de nosso desejo mais íntimo, sentíamos. Gastávamos o gosto amargo dos corpos que, mecanicamente, se encostavam. Quando muito, dividíamos um cigarro. Naquele quarto repleto de infelicidade recíproca, era a única atitude que expressava qualquer tipo de sentimento. Não nós sentíamos culpados por nada, nem precisávamos. Era um relacionamento insípido, merecia um final estupidamente gelado. Não havia como deter o pé na estrada.

A única atenção que ele chamara era o porquê seus verbos mereciam apenas o passado. Dizia que era o sentia dele. Ele retrucava a altura, sabia desde o começo, um relacionamento que têm verbos no passado, só pode terminar assim. Você pode ir, quando quiser.

O dia, de repente, ficou claro. Lá hora e cá, dentro. Ficou claro para os dois que era mais fácil libertar a ficar eternamente preso àquele amor vazio. Foi triste, porque esperamos muito tempo para terminar o que era não óbvio. Foi triste porque, no memento que decidimos terminar aquela porcaria toda, sentimos vontade de ficar junto. Foi patético. O despertar de alguma coisa que já havia morrido em seu nascedouro. A breve mentirinha que se imagina, que se vê, depois de um tempo, melhorar. Vou continuar sendo uma vaca. Ele será o mesmo babaca. Verità effettuale.

O negócio era andar, andar logo. Para que nossa burrice, que fazia aniversário, não continuasse. Descemos, fechamos a casa. Tomamos um café quente na rua, estávamos quase bonitos, agasalhados para o frio que a noite trazia.

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