A história de um livro

quinta-feira, junho 30, 2011

Uma quarta-feira, com um fiapo de sol de inverno, e foi aí que ele entrou em minha vida. Primeiro foi toda aquela hesitação de primeiro encontro. Ele [simbolicamente] olhou para mim. Eu olhei para ele. Toquei levemente os outros. Nada feito. Era aquele ali, pequeno, verdinho, desenho borrado na capa. O peguei e, timidamente, coloquei na mesinha. Era o presente perfeito. Enquanto eu escolhia o livro da mana, do amigo do peito, fitava-o com veemência. Era uma questão de destino, se alguém o tocasse eu não levaria para casa. Tínhamos um trato tácito. Ninguém o tocou. Ninguém enxergou sua essência naturalmente bela e delicada. Raptei ligeiramente o pequenino, enquanto não podia me arrepender.

Há mais ou menos dois meses ele estava carente de mim, deitado no mesmo lugar. Solitário, solícito me dizia para colocá-lo no correio. Ele sabia o que ia causar, eu sabia o que ele poderia causar. Entre tantos acontecimentos perdi a vontade de remetê-lo. Decidi não entregá-lo, decidi vendê-lo, dedicatória nominal e tudo, decidi doá-lo. Cheguei à porta do sebo que sempre compro livros. O moço da livraria sorriu, perguntou o que ia hoje – veio me abarrotando de novidades, como a opção de me entregar livros lá na Associação onde eu trabalho. Respondi, cortando toda conversa que hoje era o dia dele, coloquei o livrinho simpático sobre a mesa de vidro e disse que estava para doá-lo. O moço se riu todo, abriu e rapidamente passou os olhos na dedicatória, sem ler, mas enxergando com o coração o tamanho da cagada. Ele perguntou quanto eu queria nele, eu respondi que queria o mesmo que havia ganhado com isso tudo: nada.

Passei uma semana de cão. Pensando nele. Em seu paradeiro, em que estava com ele nas mãos, como estavam tratando, se alguém estava lendo seu conteúdo como eu. Que desespero. Que arrependimento. Que merda. Sonhei com ele a noite toda, sonhei acordada pelas ruas chuvosas, sonhei com ele enquanto chorava ao som do bom e velho blues. É engraçado como a gente vai perdendo a coragem com o tempo. Vai ficando bundona.

Chego hoje bem cedo ao trabalho. Um envelope me chama a atenção subitamente, logo quando acendo as luzes da apertada salinha. Um envelope com o meu nome. Dentro do envelope um livro, com uma dedicatória que definitivamente não era para mim. No pequeno bilhetinho amarelado estava a sentença:

“Alguns livros escolhem seus donos. Livros, além de contarem histórias e estórias, têm sim uma personalidade. Não são como cães e bichos de estimação, livros são como gente. A gente trata bem, lê suas instruções, os beija, carrega-os consigo, protege da chuva. Livros amam e podem ser amados, livros retribuem. Este aqui mesmo, me atormentou a noite toda. Deixou a cabeça quente, ele exigia estar em seu caminho inicial. Uma súplica noturna me tirou o sono: devolva-me, entregue-me. Não ouse calar esse livro, Camila. Não ouse”

Amanhã cedo, no mais tardar segunda, este livro vai seguir seu caminho. Que descanse em paz, assim com eu o farei.

You Might Also Like

2 comentários