Clarice mentiu.

domingo, agosto 07, 2011

Maria da Penha é do tipo de moça que veio do interior e gosta de puxar papo na condução, no ônibus e metrô. Maria é tão bonita quanto um amor retribuído. Ela tem os olhos verdes e a pele levemente bronzeada. Não tenha duas teclas no piano. Faltavam-lhe dois dentes da frente e me questionava a todo o momento se eu colocaria essa informação no texto que pedi para escrever sobre ela. Timidez disfarçada de ímpeto jornalístico eu respondo, sem delongas, que escreveria o que ela quisesse.

Pediu-me que escrevesse sobre o desinteresse das pessoas que tomam ônibus com ela. Sobre a falta de assunto. Sobre Rodrigo, o namorado que severamente lhe punia com alguns cascudos durante a noite. Sobre a infeliz coincidência entre Maria da Penha e a lei que nunca conseguia por em prática, Sobre o estranho trocadilho que haviam lhe cunhado, Maria da Penha era quase Maria dá Pena, mas eu não tive pena de Maria. Tive sim foi satisfação em tê-la como companheira de viagem. Maria me disse prontamente para não mentir sobre falta de dentes. Jocosa, sorriu e imitou um pianista. Uma desculpa sem graça para todos aqueles que sempre olhavam e fingiam que os dentes não faziam falta. Assim desse jeitinho, sem maneirismos. Sobre uma moça que não se demorou donzela, não teve gosto pelo casar. O caminho encurtava, enquanto compartilhávamos. O dia estava realmente bonito, nítido, enquadrado pelo vidro dos meus óculos, Uma composição estranhamente confortável, um dia para sentir-se bem – encontrando dentro de si uma parte que te é estranha,

Maria era uma condição sine qua non, uma prova irrefutável da existência de um ser superior, que por amor musicou todo sentimento naqueles quadris morenos. Com uma sutileza notavelmente sobrenatural, ajeitava os longos cachos. Uma obra divina essa Maria. O dia apontava uma semana vermelha, das entranhas de um agosto pacifico fatalmente poente. Um agosto que se arrefece e de repente esquenta. Incompreensível. Imprevisível como os amores das Marias que passam por ele com o passo apertado, temendo a crendice popular sobre os desgostos desses trinta e um dias.

Ouço o barulho bravio dos carros que, embotados de aço e lágrimas, se apertam entre as estreitas ruas da capital oblíqua. Olho Maria. É tempo de despedida. Dois anos mais velha que eu, dois filhos a mais – os dois ainda não tive. Era bonita e lasciva. Faltavam-lhe dois dentes e não lhe eram nada excrucitantes. Clarice mentiu.

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