Petricor.
domingo, agosto 21, 2011Estávamos lá, a falar novamente sobre as peculiaridades dessas gentes miúdas, que têm um gosto esquisito de se provar. ‘Lágrimas fáceis’ e cabelos sempre desordenados, onde nossas mãos teimam repousar. Gentes que andam sempre na contramão. Que, quando em quando, pisam em flores e andam na grama – aquém dos avisos espalhados salpicados de reprovação, A contar estrelas, no céu parco de sonhos. Sobre os desagradáveis sujeitos a quem dedicamos nossos amores mais sublimes, os quais não compreendem – nessa linha particular – os sinônimos que usamos para demonstrar nosso afeto desconcertante. A estudar a profundidade dos copos e silêncios que ousamos decifrar. Tarefa dispendiosa e tendenciosamente equivocada. A refutar, a questionar súplicas silenciosas que cabem num olhar.
Falávamos sobre o gracejo disfarçado de cumprimento que a barba vinha dar aos seios nus. Que respondiam com um doce arrepio. Da graça, da intimidade. Da lentidão dos beijos que nunca demos naqueles que nunca tivemos. A eterna retórica dos apaixonados, dizia enquanto bebericava mais um gole de café. Apontava o caminho, Eu estava a perguntar sinônimos para as palavras que gostaria de escrever, naquele papel rascunho todo emporcalhado. Como não importar-se com essas gentes miúdas que andam por aí a amar gente impossível? O amigo me chutava a perna, mesa abaixo, para que eu também ficasse a reparar o jeito que se tocavam os gatos, estavam a subir telhados prateados de uma chuva inconstante, interrompendo meu sério discurso sobre astronomia – tema do qual faço mínima ideia do que estou a falar.
Afrouxava gravata, apesar do aparente sentimento de deslocamento que as batidas na porta lhe causavam. Um entra e sai incomum para uma segunda-feira. Dizia que o negócio era o seguinte, que eu parasse de ser assim tão eu. Que seria mais fácil gostar de gentes mais fáceis. De gentes descomplicadas. O dedo em riste contaminava o ar com os exemplos de outras primaveras. Riamos enquanto comparávamos as ferrugens e ranhuras de nossas decepções. Os casacos começam pesar. A tarde cálida parece apontar um fim de inverno, apesar do cinza escuro que singra os céus. Nada como contrariar um melhor amigo que não se oferece a carregar a bolsa, mas sabe quando colocar a mão em seu ombro e espantar os pássaros da solidão.
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