Eu Sei

quinta-feira, novembro 24, 2011


Eu sei, meu amigo, não te acompanho mais nos bares em que você bebe as velhas tristezas, não trago mais o cigarro que você diz não acender porque é o ritual que vicia, não te conto mais minhas sutilezas. Eu sei, meu amigo, que você me deseja com a rudeza de suas mãos, que você me massageia comendo meu coração – solitário que é de velhas sensações.

Eu sei, meu amigo, que a vida não é bela e que você não crê em deus, mas deixe minhas convicções em paz e me abrace mais uma vez, não ligue quando digo para você sair, sou assim, da boca para fora, também não ligue quando dizem que não temos a mesma frequência, talvez até por isso nos damos tão bem, mundos opostos e complementares.

Eu sei, meu amigo, que és um fraco, um fraco, um fraco, apaixonado por toda mulher luminosa, nesta sua ânsia obsessiva por se permanecer jovem, eu vejo, você sabe que vejo, seus olhos crispantes diante da loira da nossa sala, sim, ela é linda mesmo, em tempos passados também sonharia com ela. Hoje não, hoje sou novas iluminuras, mas sou eu, meu amigo, você me conhece. É por isso que tanto confere meu corpo? Quer conferir se sou eu mesma?

Eu sei, meu amigo, que amo quem não devia, que luto contra quem não queria, sei que fui acometida por algo maior do que minha vida, algo que se é incapaz de dominar, sabe, dê-me um pouco de carinho, não brigue comigo esta noite, não estou conseguindo dormir.

Eu sei, meu amigo, combinamos de nos casar quando formos velhinhos, quando ninguém nos querer mais, mas você sabe que me mente, seu tolo, você não casaria comigo, você não casaria com ninguém, não faz seu tipo, você é curioso, isso sim, quer todas as experiências que o mundo renega àqueles sem imaginação.

Eu sei, meu amigo, que você é uma pequena mulher ateniense enclausurada numa alma de lenhador, que você olha meus peitos – não te mostro para não acabar com a sua fixação, gosto disso – mas enxerga mais do que os outros, até aquela veia azul, que percorre minha pele e meu futuro.

Eu sei, meu amigo, sei que você gosta muito de mim, que somos muito parecidos em nossos templos peculiares. Sente aqui, ao meu lado, deixe eu me encostar em você, me conte o que te aflige.

Não vamos falar de amor.

(Se for, só se for este nosso, de outra natureza.)

Daniel Zanella

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