Tudo isso por não estarem mais distraídos.
domingo, dezembro 25, 2011Havia também o susto, a constatação sem graça da falta de que dizer. O medo, o medo. Acostumar-se é render-se a usura que torna sujo, velho e empoeirado tudo aquilo que nos tornava tão íntimos desconhecidos. Queria dizer que o ano que vai descansar foi bom.Me render àquela memória que oculta os dias cinzas para escrever sobre as realizações. Eu mentiria, enfim. Dizer que bebi menos e parei de fumar. Dizer que escolhi o sim, porque, de uma vez por todas, não tive medo.
O ano que vai se pôr é poente desde o primeiro dia. Não andei de patinetes, amei duas vezes, mudei os cabelos, escrevi, li poucos livros que gostei, gostei de poucos livros que li, enterrei meus mortos, chorei sobre as cinzas dos dois amores perdidos. Me embriaguei. Me dissolvi.
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos." Clarice Lispector
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