terça-feira, dezembro 13, 2011

A morte era uma vertigem porque eu não gostava de viver. É o que explica o terror que me inspirava. Identificando-a á glória, fiz dela o meu destino. Quis morrer: o horror às vezes gelava a minha impaciência; não muito tempo, minha santa alegria renascia a aguardar o momento do raio em que queimaria até os ossos. Nossas intenções profundas são projetos e fugas inseparavelmente ligados. O insensato empreendimento de escrever para me fazer perdoar a existência, vejo que tinha, a despeito de vaidades e mentiras, alguma realidade, e a prova é que ainda escrevo, cinqüenta anos depois. Mas, se vou às origens, vejo nele uma fuga para a morte o que eu buscava. Por muito tempo receei terminar como tinha começado, sem importar o lugar ou a forma, e que esse vago trespasse fosse apenas o reflexo do meu vago nascimento. Minha vocação mudava tudo: as espadadas somem, os escritos permanecem; descobri que o Doador, nas letras, pode se transformar no próprio Dom, isto é, em puro objeto. O acaso me havia feito homem, a generosidade me faria livre; podia escoar minha falação, minha consciência em caracteres de bronze, substituir os ruídos da minha vida por inscrições inapagáveis, minha carne por estilo, as flácidas espirais do tempo pela eternidade; surgir para o Espírito Santo como um resíduo da linguagem, tornar-se uma obsessão para a espécie, se outro enfim, outro que não eu, outro que não os outros, outro que tudo. Começaria por me dar um corpo indesgastável e logo me entregaria aos consumidores. Não ia escrever pelo prazer de fazê-lo, mas para talhar um corpo glorioso em palavras. Encarando do alto do meu túmulo, ter nascido me surgiu como um mal necessário, uma encarnação toda provisória que preparava minha transfiguração. Para renascer era preciso escrever, para escrever era preciso cérebro, olhos, braços; terminado o trabalho, esses órgãos se reabsorveriam por si mesmos. E em volta de 1955, uma larva se fenderia e vinte e cinco borboletas infólio escapariam, batendo as asas para uma estante da Biblioteca Nacional. As borboletas não seriam mais que eu. eu: vinte e cinco volumes, dezoito mil páginas de texto, trezentas ilustrações, incluindo o retrato do autor. Meus ossos são de couro e papelão, minha carne apergaminhada cheira à cola e fungo, através de sessenta quilos de papel me enquadro à vontade. Renasço, me torno enfim todo um homem, pensando, falando, cantando, tonitruando, a se afirmar com a inércia peremptória da matéria. Tomam-me, abrem-me, expõem na mesa, lêem a mim com a palma da mão e às vezes me fazem estalar. Deixo que o façam e logo de repente fulguro, deslumbro, me imponho à distância, meus poderes atravessam o espaço e o tempo, fulminam os maus, protegem os bons. Ninguém pode me esquecer nem silenciar sobre mim: sou um grande ídolo utilizável e terrível. Minha consciência está em fragmentos; melhor: outras consciências de mim se encarregarão. Lêem-me, salto aos olhos; falam de mim, estou em todas as bocas, em língua universal e singular; em milhões de olhares me faço inquietação mais íntima, mas, se quiser tocar-me, me apago e desapareço; em nenhuma parte existo, sou, enfim! Sou por toda parte; parasita da humanidade, meus benefícios a inquietam e obrigam sem cessar a ressuscitar minha ausência.


| Jean-paul Sartre | http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=sNSN8nBW_MQ#!

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