Não posso rir agora.
segunda-feira, fevereiro 27, 2012 Chove, é noite para escrever. Não aguento a ferrugem e, de uma vez por todas, resolvo que preciso de um rumo para a vida. Visitei tantas vezes os hospitais dessa cidade como nunca antes. Nunca quis tanto não poder. Estou sozinha e nunca quis tanto estar. A mãe está a dormir numa cama nada confortável, faz companhia a tia que se acidentou há uns dias. Peguei sua mão fria logo após chegar ao hospital. A tia, por nervosismo e dor paralisante esqueceu-se dos telefones. Apenas o meu ficou na memória. As vésperas do meu completar de anos, nunca estive tão contemplativa, em relação a vida e a morte. Nunca estive tão próxima as duas, não o quanto estive por esses dias.
O amigo pergunta se acredito em "trabalho". Acredito, mas para essas áreas de comunicação está difícil qualquer empreitada. A irmã dorme noutro canto da casa. Estou insone, de um lado para outro. Absorta, entre os vinte e poucos e o calar da noite. Está quente e esse é o menor dos problemas. Penso nos corpos que se colidem. Que se consomem nas chamas de nosso acumular de meses e aniversários. Como a dança dos dervixes. Corpos e mentes. Os corpos, penso, são mais voláteis, células e fagocitoses diárias. As mentes se eternizam, graças as nossas impressões cotidianas, compartilhamo-nos uns com os outros voluntaria e involuntariamente.
Estou envelhecendo e tenho medos estarrecedores. Porque fico branca frente à folha branca e não consigo escrever. Porque os sonhos não pagam as dívidas, que por sua vez, se amontoam e duplicam. Estou intransponível, feito um barco atracado num porto qualquer. Gostaria de escrever sobre outros, mas só penso em mim. Um tema egoísta. Estou perdida. Ouço a voz de uma criança, é meu pequeno sobrinho que pede choroso. “Deite aqui, tia Camila, pra eu pegar sua orelha. Tá tarde”, diz. Pede que tranque as portas. Sonolento, me pergunta se a gente é feliz. "Agora não", disse eu. Não podemos rir agora, é como diria Guimarães Rosa, “rir, antes da hora, engasga”.
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