O que você vai ser quando você crescer?
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
E dorme agora, que é só o vento lá fora. Nada é como era na época de nossos pais. A geração deles mudou o mundo, conquistou a liberdade, a independência das jornadas maçantes do trabalho fixo. Conquistaram a libertação da castidade. E talvez a mais essencial de todas as coisas, o fim da castidade racional. Eles nós apresentaram a separação de corpos e o dilema estrutural de uma família clinicamente problemática, sem panos quentes. Temos muito a agradecê-los.
Temos muito a maldizê-los. Somos verdadeiros capitães de areia – e que Jorge Amado me desculpe pelo o uso impróprio. Perdidos nesse pseudo-solilóquio diário, tudo que vivemos está online, nosso dinheiro, nossas preferências musicais, nossos livros e fotografias. Tudo, tudo está nesse mundo extracorpóreo. Não temos o palpável, aquilo que solidifica nossos caráteres, nossas ações. Tudo flutua como um grande barco a deriva o qual nunca saberemos onde vai dar. Somos independentes e não amamos como se não houvesse um amanhã. Porque amar é um conflito que vai além de nossas jurisdições, além de tocar profundamente em nosso ponto mais fraco – e crucial: não conseguimos viver só, não conseguimos viver junto. Condicionamos cada célula de nossos corpos a essa autofagia sentimental, cada dia uma nova alma gêmea, fadada ao fracasso e o desuso.
Quanto a mim, depois de quase vinte anos na escola, estou mais perdida que um cego em tiroteio. Nunca estive tão inclinada a essa pergunta, que inspirou nossa geração pós-moderna e eternamente insaciável. O que sou, agora que cresci? Nunca houve uma pedra tão grande em meu caminho, nunca houve José. O que existe é uma grande besta de olhos vermelhos e flamejantes que me indaga diariamente “e agora?”. Esta besta gigante vive em mim, despreza tudo que acredito. Tenho um diploma na prateleira, mas não sou jornalista. Tenho uma coleção de desamores e relacionamentos natimortos. A estranha necessidade de aproximação e a imediata repulsão a tudo. Aliás, tenho uma porção de coisas que eu não sou. Sei o que eu não fui quando cresci. A besta me olha com seus olhos de brasa e fala francês em auto e bom som: qu'est-ce que c'est? Existe uma fé e uma descrença fulminante. Existe um corpo e a grande fúria do mundo.
Vou nadando em mar aberto. Cada braçada aumenta a distância, diminui o fôlego. Estátuas e cofres e paredes pintadas neste infinito particular, com lugar apenas para um. Ninguém sabe o que aconteceu. Sou um grão de areia e não entendo meus pais.
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