RelevO

terça-feira, abril 09, 2013


          Andava meio indisposta, era o acúmulo das obrigações diárias servindo de esteio à vida adulta. E como é árduo esse caminho, austero. Estava feliz. Havia lembrado um presente insuperável e o carregado comigo. Era uma coleção de companhias. Meus colegas, colocados em letras naquele papel típico me acompanhavam noite adentro. Dentro de uma caixa, edição só para colecionador. Sinto-me intimamente lisonjeada.
            Havia o caminho e havia a fé incondicional no que não podemos ver. A crença no amor e nas coisas intangíveis e a esperança incomensurável pela humanidade, pelos homens de boa e má fé. Havia o conto sobre o gato atropelado, a cerveja no bar, o amor perdido, o amor correspondido que vira carnaval. Também se notava a ansiedade, o desejo de contar e contar com desejo tudo que adoramos odiar. Sem contar o amigo, que escreve com a alma – amigo que dá saudade. E havia a fome que as coisas não podem saciar. Porque a fome que tínhamos era antagônica a sensação de satisfação. Quanto mais líamos, mais seríamos insaciáveis.
            O periódico não poderia ser titulado de forma mais sensível e original. Era como sentir em braile, o mais profundo de todos nós. Como uma bela escultura sob e sobre o papel, eram palavras dando corpo as nossas emoções mais pessoais. Gosto da capa dessa edição, em especial. Alguém segura um imenso espelho que reflete várias janelas. Engraçada a memória, me remete ao olhar. Gosto da disposição dos poemas e dos textos. Eu desejei ser cada mulher amada daquelas páginas. Sentimo-nos invariavelmente bem quando sabemos que outros escrevem sobre o amor, por nossa causa. Poucas pessoas têm a coragem de dizer, eu digo: gosto. Não é do sofrimento que eu gosto, é desta espécie de elogio sádico não declarado que existe em um texto desse tipo. O apreço por si mesmo, como diria Eça de Queiroz. Senti a estranha vontade de estar em cada copo de bebida que alimentava a sede de todos. Queria estar naqueles bancos, naquelas praças, nos espelhos, nos vestidos. Uma espécie de onipresencia não teológica, para ser um pouco palavra para cada escritor de cada edição. Queria ser carnaval e sucumbir em uma sexta-feira de paixão.
            Enquanto eu lia, meu colega do banco de itinerário – completamente desconhecido nessa encarnação - lia junto comigo. É quase culposo quando, distraídos, mudamos a página. Eu estava prestes a viver outra vida, quando ele me olhou com reprovação. Poderia lhe ofertar uma daquelas pílulas revigorantes de papel, mas eu não fiz. Não fiz pelo egoísmo admitido, dentro da minha caixa de colecionadora havia uma dedicatória simplesmente edificante. Dizia “para não-menininhas e afins”. Embora o moço leitor-de-jornal-alheio possa parecer não-menininha à primeira vista, jamais questionaria seus afins para não cair em tentação. O presente não era para ele, era para mim. Tão relevante quando a luz que acendeu as estrelas, tão perceptível quanto uma cicatriz que delimita a pele, daquele ponto nunca mais será a mesma, em relevo.

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