Ressaca da certeza
quarta-feira, janeiro 14, 2015Devia-me aquela dúvida. Estava em falta comigo e se existe alguém a quem se deve honestidade, é consigo. Dúvida é objeto pontiagudo, penetra a pele e se instala. Dá início a saga inquietante, corpo e mente vagando pela eterna vida que poderia ter sido e não foi, como diria o poeta. Sentia que tocando algo novo tudo subitamente mudaria, a felicidade nunca experimentada, a doce satisfação, o contentamento. Era disso que se tratavam os poemas? Era nesse tom que cantavam as músicas?
Os anos se passavam, os medos se concretizavam e as certezas se dissolviam. Mas essa dúvida, essa dúvida é do tipo que não se cala. Dessas que conversam com a gente durante os minutos que precedem os sonhos. Que permanecem em nós e nos direcionam para outros lugares. Quando nos indagam sobre nosso silêncios, quando miramos - flutuando sob nós mesmos - o nada e nos retornam e respondemos que não estávamos pensando em nada, é nela que estamos debruçados. Ela é um tipo de nada. Um nada tão pesado e tão maciço. A dúvida é nada porque não chega a ser uma coisa; se coisa fosse, seria apenas o sim ou o não. A certeza é algo. Certezas não me tiram o sono, mas as dúvidas sim. E de repente se tornam plural e a gente nem viu. Ninguém comenta, mas elas estão ali. No Neruda. Na mesa da cozinha. No mercadinho. Às vezes, dá uma fisgada. Risada sem graça, mordida no lábio, no estalar dedos.
Como alguém pode dever-se uma dúvida? Como eu, que era tão cheia de certezas, tão cheia de algo, poderia estar assim, cheia de nada? Constantemente acordada, insone. Porque elas me interrompem quando tento esclarecê-las.
Lembro-me desse amigo que dizia sobre a saudade, a saudade é a ressaca da presença. Acho que a dúvida é ressaca da certeza. Sinto saudade do amigo. E tenho minhas dúvidas. Elas se deitam comigo e não me deixam dormir.
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