A guilhotina e outras cabeças

domingo, outubro 18, 2009

As lutas emblemáticas dos partidos de esquerda e direita não são tão recentes como se pensa. Opostas como imãs da mesma polaridade, dividem homens e mulheres por meio de diferenças político-ideológicas. A origem desses termos retoma à tão conhecida, quanto velha, Revolução Francesa.
As reuniões acaloradas entre revolucionários e conservadores, em que os membros do Terceiro Estado sentavam-se à esquerda do rei — e do lado direito, os nobres e participantes do clero —, resultaram na criação de novos adjetivos ao vocabulário e aos seus respectivos simpatizantes. À esquerda cabia todo radicalismo e oposição; à direita, as opiniões favoráveis a Sua Majestade.
Essas noções de separação política ainda surtem muito efeito em nossa sociedade. Quem nunca teve aquele colega de sala, com o Che estampado na camisa, gritando aos quatro ventos, a liberdade dos ideais, contra a oposição sangrenta do liberalismo? O que algumas linhas de pensadores afirmam é que, de forma alguma, em terras tupiniquins um dia existiu alguma diferença entre esquerda e direita. Esses conflitos não passam de alusões ao passado, mistificadas pelo ideal utópico adolescente.
Olhando o cenário político nacional, essa visão, um tanto quanto pessimista, não deixa de ter razão. São tantas alianças e reconciliações que não se pode mais imaginar. Em um dia o político que joga a “pedra’’ em seu rival partidário, monta um castelo para a candidatura da então oposição. Ou até mesmo alia-se ao partido difamado, mesmo que seus ideais sejam completamente diferentes. O problema é que no Brasil, o incrível fenômeno do “partido na situação” transforma os políticos no que muita gente chama de farinha do mesmo saco. Um álibi conhecido e recente foi a troca de ofensas entre os senadores Fernando Collor de Melo (PTB-AL) e Pedro Simon (PMDB-RS), o motivo do embate seria um lembrete ao ex-presidente, que defende a permanência de Sarney na presidência do Senado. Simon, que é a favor do afastamento de Sarney, afirma que Collor o convidou para ser vice-presidente de sua chapa. A resposta de Fernando Collor de Melo não poderia ser mais caustica: “São palavras que não aceito sobre mim e minhas relações políticas. São palavras que eu quero que o senhor as engula e as digira como achar conveniente”. O que me lembra outra história francesa, a criação da guilhotina. O doutor Joseph Ignace Guillotin que imaginou e projetou a máquina para sua infelicidade, acabou perdendo sua cabeça, literalmente.

You Might Also Like

0 comentários