Ele

segunda-feira, maio 27, 2013

Andara esperando o encontro de almas, aquilo que sempre mencionavam os livros. Andara porque seguia enfrente e acreditava que seguir é o passo mais natural. Não escrevera há tempos em terceira pessoa, mas como era do tipo que não se negligenciava por nada, resolvera escrever. Era feito de Jefferson Airplane e também de Ray Charles, havia alguns shows na lista de boas realizações, alguns animais de quem já fora dono, algumas mulheres com quem havia se ajeitado – e outras que são catastroficamente apaixonantes, embora o destino nunca às deixasse permanecer. Permanecera a mania de escrever como se ele fosse ela e como ela fosse ele. Sempre gostou da inversão proposital.

 Elencara algumas razões para que ela ficasse, desejara que ela também sentisse o mesmo sentimento irracional. Não queria, necessariamente, interferir na ordem astrológica das coisas, porém combinara os mapas astrais uma ou duas vezes. Pensara em colocar um R ou Z a mais no sobrenome. Estava apaixonado de fato. Como a moça segurava a folha, como ela levantava sutilmente uma das sobrancelhas para contar-lhe algo, como divagava entre as palavras, como deduzia algumas palavras, como amava o incalculável. A timidez que a impedia de olhar nos olhos, não era um subterfugio, mas um traço completamente admirável – e etéreo. Talvez fosse também pelos silêncios e porque estava em todas as coisas. Como aquela sensação de chegar a um lugar que foi recentemente abandonado, a imaginação, o toque, a presença inegável, contudo invisível. 

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