domingo, junho 21, 2015
É difícil entender porque é tão difícil deixar alguém partir. É difícil também deixar alguém chegar. Ultrapassar aquela última porta, o desafio final que delimita o mais íntimo de nossas vidas. Quando alguém vai embora é como se voltasse por esse longo corredor e trancasse tudo de novo. Todo interesse. Toda vontade de desempenhar as atividades diárias, por mais vitais que elas pareçam ser.
De alguma forma, que nunca consegui entender, tudo parece estar envolvido. Pentear o cabelo dói. Passar manteiga no pão dói. Pensar que amanhã vai existir dói. A tolice dói. O oxigênio dói. Não que a gente não soubesse no que ia terminar, como se no fundo a gente já tivesse previsto que aquela pessoa iria agir dessa forma. Era por isso que você sentia que não deveria tê-la deixado chegar. É um risco que corremos sempre.
Sempre disse que não queria a relação que meus pais tiveram. Mas, os olhos dos filhos esquecem de enxergar certas sutilezas. Não existe uma fórmula para gostar de alguém e de afastar toda parte ruim. No fim, eu queria sim o que meus pais têm. Nunca se deram bem afinal, como os roteiros de filmes românticos. Há dias em que nem 'bom dia' se pode escutar. Mas meu pai sempre esteve do lado da minha mãe. Não me lembro de qualquer momento de dificuldade em que minha mãe se ausentou de meu pai. Bem lá no fundo, isso construiu algo em mim e em meus irmãos. Algo que ecoa todos os dias em nossos corações, de que somos melhores quando estamos juntos. Algo entre o respeito e o companheirismo. Algo que alguém que nos fecha a porta nunca vai entender.
Porque amar de verdade também é estar junto quando tudo parece dar errado. Amar de verdade envolve muito mais do que os dias em que o sol brilha amarelo lá em cima. Amar é dia de chuva. Amar também é estar chateado e perguntar como foi a consulta no oncologista. Amar é rezar toda noite para que a outra pessoa fique bem. Também é abrir mão um pouco de si e escolher a liberdade de ver os outros. Amar é deixar portas escancaradas, é prometer menos e realizar mais. Deixar que o cotidiano, o mundano e a dura verdade falem mais alto de vez em quando.
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